Adenoma no fígado: é possível tratar sem cirurgia? O que mostra um estudo de referência sobre a ablação térmica percutânea

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Adenoma no fígado: é possível tratar sem cirurgia? O que mostra um estudo de referência sobre a ablação térmica percutânea

Adenoma no fígado: é possível tratar sem cirurgia? O que mostra um estudo de referência sobre a ablação térmica percutânea

Adenoma no fígado: é possível tratar sem cirurgia? O que mostra um estudo de referência sobre a ablação térmica percutânea

Um estudo canadense publicado na revista Cardiovascular and Interventional Radiology avaliou 36 pacientes com adenoma hepatocelular — um tumor benigno do fígado que pode sangrar ou, mais raramente, se transformar em câncer — tratados com ablação térmica percutânea, que destrói o tumor por calor através de uma agulha. O procedimento eliminou todos os adenomas tratados, com baixa taxa de complicações e, na grande maioria dos casos, sem necessidade de internação.

No Hospital Certa, realizamos ablação térmica percutânea de tumores do fígado — um procedimento minimamente invasivo, guiado por imagem, que destrói a lesão por calor através de uma agulha, sem cortes e, na maioria dos casos, com alta no mesmo dia.

O que o estudo investigou

O adenoma hepatocelular é um tumor benigno e raro do fígado, com incidência estimada entre 0,3 e 4 casos por 100 mil pessoas. Aparece sobretudo em mulheres jovens e está fortemente associado ao uso de anticoncepcionais orais; outros fatores de risco incluem esteroides anabolizantes, obesidade, diabetes e algumas doenças metabólicas, como a glicogenose tipo Ia e a hemocromatose.

Apesar de benigno, o adenoma merece atenção por dois riscos: o sangramento — que, em uma revisão sistemática citada pelos autores, foi relatado em cerca de 27% dos pacientes — e a transformação em carcinoma hepatocelular, estimada em torno de 4% e concentrada principalmente em tumores grandes. As opções de manejo incluem a suspensão do anticoncepcional com acompanhamento por imagem, a retirada cirúrgica (hepatectomia) e a embolização arterial.

A ablação térmica percutânea, usada rotineiramente no tratamento do câncer primário do fígado, vinha sendo descrita como alternativa para o adenoma em séries pequenas. O objetivo deste estudo foi avaliar, em uma casuística maior, a segurança e a eficácia da ablação térmica no tratamento do adenoma hepatocelular.

Como o estudo foi feito

Foi um estudo retrospectivo, de braço único (sem grupo de comparação), aprovado por comitê de ética e realizado em um centro terciário de referência no Canadá, com pacientes tratados entre 1999 e 2016. A busca no sistema de radiologia identificou 83 pacientes; após excluir aqueles sem confirmação do diagnóstico por exame anatomopatológico ou não tratados com ablação, 36 pacientes compuseram a amostra final.

A indicação da ablação foi sempre definida em reunião multidisciplinar semanal de tumores hepáticos — com radiologia intervencionista, cirurgia hepatobiliar, transplante, hepatologia, oncologia e patologia —, levando em conta idade, sexo, desejo de gestação, tamanho, número e localização dos tumores, sangramento prévio e comorbidades. A ablação foi feita por radiofrequência ou micro-ondas, com a agulha guiada por ultrassom (61% dos procedimentos) ou por ultrassom combinado à tomografia (36%). Em 18% dos casos foi usada hidrodissecção — injeção de líquido para afastar e proteger estruturas vizinhas do calor.

O seguimento foi feito com tomografia ou ressonância magnética, em geral aos 3, 6 e 12 meses e depois anualmente. A eficácia técnica primária foi definida como ausência de tumor residual com realce nos exames após a primeira sessão; a secundária, após sessões adicionais quando necessárias.

Figura 1 — Desenho do estudo: seleção dos pacientes, procedimentos e seguimento. Figura original elaborada pelo Hospital Certa com base nos dados de Mironov et al., Cardiovasc Intervent Radiol, 2018.

Principais achados

  • Foram tratados 58 adenomas em 36 pacientes (32 mulheres, idade mediana de 35 anos), ao longo de 44 sessões. O tamanho mediano dos tumores foi de 2,1 cm (variação de 0,6 a 6,0 cm), e 22% dos pacientes já haviam tido sangramento relacionado ao adenoma antes do tratamento.
  • A eficácia técnica primária foi de 88%, e a secundária chegou a 100%: todos os tumores com resíduo após a primeira sessão foram eliminados com uma nova ablação.
  • Durante o seguimento mediano de 1,7 ano, não houve nenhum caso de transformação maligna, sangramento tardio relacionado ao adenoma ou óbito — eficácia clínica de 100%.
  • 86% dos procedimentos foram realizados em regime ambulatorial, com tempo mediano de 85 minutos por sessão.
  • Ocorreram duas complicações maiores, ambas sangramentos imediatos após o procedimento (4,5% por procedimento): um foi controlado com embolização da artéria hepática direita e o outro com tratamento clínico. Os dois pacientes tiveram alta no sexto dia, sem novos sangramentos no seguimento.
  • Segundo os autores, a taxa de complicações foi semelhante à descrita na literatura para a cirurgia e para a embolização arterial — com a diferença de que a ablação dispensa a incisão e, na maioria dos casos, a internação.
Figura 2 — Principais resultados de eficácia e segurança da ablação térmica do adenoma hepatocelular. Figura original elaborada pelo Hospital Certa com base nos dados de Mironov et al., Cardiovasc Intervent Radiol, 2018.

Onde foi feito e onde foi publicado

O estudo “Retrospective Single-Arm Cohort Study of Patients with Hepatocellular Adenomas Treated with Percutaneous Thermal Ablation” foi conduzido por Oleg Mironov e colaboradores, das divisões de Radiologia Vascular e Intervencionista do St Joseph's Healthcare Hamilton (Universidade McMaster) e do Toronto General Hospital – University Health Network (Universidade de Toronto), no Canadá, e publicado em 2018 na revista Cardiovascular and Interventional Radiology (CVIR), periódico oficial da CIRSE (Sociedade Europeia de Radiologia Cardiovascular e Intervencionista). É um dos trabalhos de referência na literatura sobre ablação térmica do adenoma hepatocelular, frequentemente citado em revisões posteriores sobre o tema.

Referência (Vancouver): Mironov O, Jaberi A, Beecroft R, Kachura JR. Retrospective Single-Arm Cohort Study of Patients with Hepatocellular Adenomas Treated with Percutaneous Thermal Ablation. Cardiovasc Intervent Radiol. 2018;41(6):935-941. doi:10.1007/s00270-018-1893-4

Por que isso importa para a saúde do paciente

O adenoma hepatocelular costuma ser diagnosticado em mulheres jovens, muitas vezes em fase de vida produtiva e com planos de gestação. Quando o tumor precisa ser tratado, a cirurgia tradicional implica incisão, anestesia geral e internação de vários dias. Este estudo mostra que a ablação térmica percutânea pode eliminar o adenoma sem cortes, com baixa taxa de complicações e, na grande maioria dos casos, com alta no mesmo dia.

É importante, porém, ler os resultados com cautela. Trata-se de um estudo retrospectivo, de centro único, sem grupo de comparação e com amostra pequena. Além disso, os tumores tratados eram, em sua maioria, pequenos (mediana de 2,1 cm) — faixa em que o risco de sangramento e de malignização já é baixo e em que a suspensão do anticoncepcional com acompanhamento por imagem pode ser a melhor conduta, como os próprios autores reconhecem. Eles defendem estudos prospectivos comparando a ablação com a observação e com as demais estratégias.

Por isso, a decisão de tratar — e de como tratar — deve ser sempre individualizada e discutida por equipe multidisciplinar, considerando tamanho, número e localização dos tumores, história de sangramento, sexo, desejo de gestação e o subtipo do adenoma, já que alguns subtipos têm maior risco de sangramento ou de transformação maligna.

Perguntas frequentes

O que é o adenoma hepatocelular?

É um tumor benigno do fígado, formado por células hepáticas, mais comum em mulheres jovens e fortemente associado ao uso de anticoncepcionais orais. Outros fatores de risco incluem esteroides anabolizantes, obesidade e algumas doenças metabólicas.

Todo adenoma precisa ser tratado?

Não. Muitos adenomas pequenos permanecem estáveis ou diminuem após a suspensão do anticoncepcional e podem ser apenas acompanhados com exames de imagem. O tratamento costuma ser considerado em tumores maiores, que crescem, que já sangraram, em homens ou em subtipos de maior risco — sempre após avaliação individualizada.

Como funciona a ablação térmica?

Guiado por ultrassom ou tomografia, o radiologista intervencionista posiciona uma agulha fina no centro do tumor através da pele. A agulha gera calor — por radiofrequência ou micro-ondas — que destrói o tumor no próprio local, sem necessidade de retirá-lo cirurgicamente. O tecido tratado é gradualmente reabsorvido pelo organismo.

Quais os riscos do procedimento?

No estudo, a complicação relevante foi o sangramento logo após o procedimento, em 4,5% das sessões; os dois casos foram controlados — um com embolização arterial e outro com tratamento clínico. Não houve óbitos nem sangramentos tardios durante o seguimento.

A ablação substitui a cirurgia?

Não em todos os casos. A ablação é mais adequada para tumores menores, em localização favorável. Tumores grandes ou em posições de difícil acesso podem exigir cirurgia ou outras estratégias, como a embolização arterial. A escolha deve ser feita por equipe multidisciplinar.

Como é o acompanhamento depois do tratamento?

Com tomografia ou ressonância magnética periódicas — no estudo, em geral aos 3, 6 e 12 meses e depois anualmente. Se houver tumor residual, uma nova sessão de ablação pode ser realizada, como ocorreu com os pacientes que atingiram a eficácia secundária de 100%.

Sobre o autor

O Dr. Denis Szejnfeld é radiologista intervencionista, doutor pela Unifesp e professor da instituição, e ex-presidente da SOBRICE (biênio 2023–2024). Reúne três títulos de especialista — em Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR), em Radiologia Intervencionista e Angiorradiologia (SOBRICE) e em Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV) —, com formação no Brigham and Women's Hospital e no Beth Israel Deaconess Medical Center (Harvard) e ampla produção científica em periódicos nacionais e internacionais. Consulte sua produção científica e índice de impacto (índice h) no Google Scholar e o currículo completo na Plataforma Lattes.

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