Mioma: é possível tratar sem cirurgia e voltar ao trabalho seis semanas antes? O que mostra o estudo REST

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Mioma: é possível tratar sem cirurgia e voltar ao trabalho seis semanas antes? O que mostra o estudo REST

Mioma: é possível tratar sem cirurgia e voltar ao trabalho seis semanas antes? O que mostra o estudo REST

Mioma: é possível tratar sem cirurgia e voltar ao trabalho seis semanas antes? O que mostra o estudo REST

O estudo REST, publicado no New England Journal of Medicine, sorteou mulheres com miomas sintomáticos entre a embolização das artérias uterinas e a cirurgia convencional. Após um ano, a qualidade de vida foi semelhante nos dois grupos — mas quem fez a embolização ficou menos tempo internada e voltou ao trabalho, em mediana, 42 dias antes. Em contrapartida, parte das pacientes embolizadas precisou de um novo tratamento ao longo do seguimento.

“No Hospital Certa, a embolização de miomas é realizada por radiologistas intervencionistas como um tratamento minimamente invasivo, sem cortes, que preserva o útero — uma alternativa para mulheres que desejam controlar os sintomas dos miomas sem retirá-lo.”

O que o estudo investigou

Os miomas uterinos são os tumores benignos mais comuns do aparelho reprodutor feminino. Podem causar sangramento menstrual intenso, dor e sensação de peso ou pressão na pelve. Durante décadas, o tratamento padrão para mulheres sem planos de engravidar foi a histerectomia (retirada do útero); para quem desejava preservar a fertilidade, a principal opção era a miomectomia (retirada cirúrgica dos miomas).

A embolização das artérias uterinas surgiu em 1995 como alternativa: por meio de um pequeno cateter introduzido por uma artéria, o radiologista intervencionista injeta micropartículas que bloqueiam os vasos que nutrem os miomas. Sem irrigação, eles diminuem de tamanho — e o útero permanece no lugar.

Apesar da rápida difusão da técnica, faltava uma comparação rigorosa com a cirurgia. O estudo REST foi desenhado para responder a uma pergunta direta: a embolização oferece qualidade de vida equivalente à cirurgia, e o que se ganha e o que se perde ao escolhê-la?

Como o estudo foi feito

Foi um ensaio clínico randomizado e multicêntrico — ou seja, as pacientes foram distribuídas por sorteio entre os tratamentos — conduzido em 27 hospitais do Reino Unido entre 2000 e 2004. Participaram 157 mulheres com miomas sintomáticos maiores que 2 cm, confirmados por ressonância magnética, para as quais o médico já considerava justificado um tratamento cirúrgico.

O sorteio seguiu a proporção de 2 para 1: 106 pacientes foram designadas para a embolização e 51 para a cirurgia (43 histerectomias e 8 miomectomias, todas por via abdominal aberta). As embolizações foram feitas por radiologistas intervencionistas experientes, com partículas de tamanho padronizado, sempre tratando as duas artérias uterinas.

O desfecho principal foi a qualidade de vida após 12 meses, medida por um questionário validado (SF-36). Também foram avaliados o tempo de internação, o retorno às atividades do dia a dia, os sintomas, as complicações, a necessidade de novos tratamentos e os custos.

Figura 1. Desenho do estudo REST. Esquema original elaborado pelo Hospital Certa com base em The REST Investigators, N Engl J Med, 2007.

Principais achados

  • Qualidade de vida equivalente: após 12 meses, não houve diferença entre os grupos em nenhum dos oito domínios do questionário SF-36. Ambos os tratamentos trouxeram melhora importante em relação ao início.
  • Internação muito mais curta: a mediana de internação foi de 1 dia após a embolização contra 5 dias após a cirurgia.
  • Volta mais rápida à rotina: as pacientes embolizadas voltaram ao trabalho em mediana 20 dias após o procedimento, contra 62 dias no grupo cirúrgico; voltaram a dirigir em 8 dias (contra 34) e retomaram a vida sexual em 21 dias (contra 53).
  • Menos dor no pós-operatório imediato: a dor nas primeiras 24 horas foi significativamente menor após a embolização.
  • Alta satisfação nos dois grupos: 88% das mulheres embolizadas e 93% das operadas recomendariam o tratamento a uma amiga — diferença sem significância estatística.
  • Segurança comparável: no primeiro ano, eventos adversos maiores ocorreram em 12% do grupo da embolização e em 20% do grupo cirúrgico, sem diferença estatística. Na cirurgia, eles se concentraram durante a internação; na embolização, ocorreram mais após a alta.
  • Possibilidade de novo tratamento: 20% das pacientes embolizadas precisaram de um procedimento adicional (nova embolização ou histerectomia) por sintomas persistentes ou recorrentes ao longo de um seguimento mediano de 32 meses. Ao final de um ano, os sintomas específicos também eram levemente melhores no grupo cirúrgico.

Figura 2. Tempo mediano de recuperação após embolização e cirurgia. Gráfico original elaborado pelo Hospital Certa com dados de The REST Investigators, N Engl J Med, 2007.

Onde foi feito e onde foi publicado

O estudo “Uterine-Artery Embolization versus Surgery for Symptomatic Uterine Fibroids” foi conduzido pelo grupo de investigadores REST (Randomized trial of Embolization versus Surgical Treatment for fibroids), coordenado a partir de Glasgow, na Escócia, com 27 hospitais do Reino Unido, e publicado em 2007 no New England Journal of Medicine, um dos periódicos médicos de maior impacto do mundo.

Referência (Vancouver): The REST Investigators. Uterine-artery embolization versus surgery for symptomatic uterine fibroids. N Engl J Med. 2007;356(4):360-70. doi:10.1056/NEJMoa062003

Por que isso importa para a saúde do paciente

O REST é um dos estudos que consolidaram a embolização como alternativa real à cirurgia para miomas sintomáticos. A mensagem central é clara: a qualidade de vida ao final de um ano é semelhante, mas o caminho até ela é muito diferente. Para a mulher que não pode ou não quer ficar afastada do trabalho e da família por dois meses — ou que simplesmente deseja manter o útero —, a embolização oferece uma recuperação muito mais rápida.

O acompanhamento de longo prazo do próprio estudo, publicado em 2011, confirmou esse equilíbrio: em 5 anos, a qualidade de vida e a satisfação continuaram semelhantes entre os grupos, e os custos se igualaram. Por outro lado, cerca de um terço das pacientes embolizadas (32%) precisou de nova intervenção por falha do tratamento ou complicações, contra 4% no grupo cirúrgico. Os próprios autores concluíram que a escolha deve ser da paciente, bem informada sobre essas vantagens e limitações.

Vale lembrar dois pontos. Primeiro, o grupo cirúrgico do REST foi composto quase inteiramente por histerectomias abertas; hoje, técnicas cirúrgicas menos invasivas podem encurtar a recuperação da cirurgia. Segundo, para mulheres que desejam engravidar, o estudo FEMME (New England Journal of Medicine, 2020), que comparou embolização e miomectomia, mostrou qualidade de vida melhor com a miomectomia em 2 anos — diferença que deixou de ser estatisticamente significativa com 4 anos de acompanhamento. Por isso, a decisão deve ser individualizada, considerando o tamanho, o número e a localização dos miomas, o desejo de gestação e as preferências da paciente, em conjunto com o ginecologista e o radiologista intervencionista.

Perguntas frequentes

A embolização retira o mioma?

Não. O procedimento bloqueia os vasos que nutrem os miomas, que perdem a irrigação e diminuem de tamanho ao longo dos meses seguintes. O útero é preservado e não há cortes na barriga: o acesso é feito por uma pequena punção arterial.

O que é a síndrome pós-embolização?

É uma reação inflamatória esperada nos dias seguintes ao procedimento, com cólica, febre baixa e mal-estar, causada pela redução dos miomas. Foi a complicação menor mais frequente no estudo e costuma ser controlada com medicamentos.

Mulheres que desejam engravidar podem fazer a embolização?

O REST não foi desenhado para avaliar fertilidade, e os autores ressaltam que o efeito da embolização sobre gestações futuras ainda precisava ser mais bem estudado. Para quem deseja engravidar, a miomectomia costuma ser discutida como primeira opção, e a decisão deve ser individualizada com o ginecologista.

Quem pode ser candidata à embolização de miomas?

Mulheres com miomas que causam sintomas como sangramento intenso, dor ou pressão pélvica. A avaliação inclui ressonância magnética. Algumas situações, como gestação, infecção pélvica ativa e certos miomas pediculados (presos ao útero por uma haste), exigem avaliação específica ou podem contraindicar o procedimento.

Sobre o autor

O Dr. Denis Szejnfeld é radiologista intervencionista, doutor pela Unifesp e professor da instituição, e ex-presidente da SOBRICE (biênio 2023–2024). Reúne três títulos de especialista — em Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR), em Radiologia Intervencionista e Angiorradiologia (SOBRICE) e em Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV) —, com formação no Brigham and Women's Hospital e no Beth Israel Deaconess Medical Center (Harvard) e ampla produção científica em periódicos nacionais e internacionais. Consulte sua produção científica e índice de impacto (índice h) no Google Scholar e o currículo completo na Plataforma Lattes.

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