Quimioembolização seguida de ablação melhora a sobrevida no câncer de fígado? O que mostra o estudo TORCH
Conteúdos e materiais
Um ensaio clínico randomizado de fase 3 publicado na revista JAMA Oncology comparou a quimioembolização transarterial (TACE) seguida de ablação térmica com a TACE isolada em 241 pacientes com carcinoma hepatocelular confinado ao fígado e sem indicação de tratamento curativo. A combinação sequencial mais que dobrou o tempo até a progressão da doença e a sobrevida global, com perfil de segurança semelhante ao da TACE isolada.
“No Hospital Certa, a quimioembolização hepática e a ablação percutânea guiada por imagem já fazem parte da rotina no tratamento dos tumores do fígado. O que este ensaio de fase 3 coloca em evidência é justamente a combinação sequencial dessas duas técnicas — tratar primeiro pela artéria e, em seguida, eliminar o tumor que resistiu.”
O carcinoma hepatocelular (CHC) em estágio intermediário — tumores múltiplos ou grandes demais para cirurgia, transplante ou ablação com intenção curativa, mas ainda confinados ao fígado — tem na quimioembolização transarterial (TACE) o tratamento padrão em todo o mundo. O procedimento leva quimioterápico diretamente ao tumor pela artéria que o alimenta e, ao mesmo tempo, bloqueia esse vaso.
O problema é que os resultados de sobrevida com a TACE isolada são modestos: a sobrevida livre de progressão mediana gira em torno de 7 a 8 meses. Parte da explicação é técnica — quando as artérias que nutrem o nódulo são muito finas (abaixo de 30 micrômetros), as partículas embolizantes, que medem entre 40 e 70 micrômetros, não conseguem chegar até o alvo. O resultado é tumor viável remanescente dentro do fígado, que é o principal motor da progressão da doença.
A pergunta do estudo TORCH foi direta: acrescentar uma ablação térmica dirigida a esse tumor residual, logo após a quimioembolização, melhora os desfechos clínicos em comparação com a TACE isolada?
Trata-se de um ensaio clínico randomizado, aberto, de fase 3, conduzido em dois centros terciários da China — o Sun Yat-sen University Cancer Center e o Terceiro Hospital Afiliado da Universidade Sun Yat-sen — entre maio de 2015 e agosto de 2024, com corte de dados em outubro de 2025.
Foram incluídos pacientes com CHC confinado ao fígado (estágio B de Barcelona) apresentando de 2 a 3 lesões entre 3 e 7 cm, ou de 4 a 10 lesões nenhuma delas acima de 7 cm, com bom estado geral (ECOG 0), função hepática Child-Pugh A ou B7 e sem tratamento sistêmico prévio. Os 241 participantes foram randomizados 1:1 entre TACE seguida de ablação e TACE isolada.
Ambos os grupos receberam quimioembolização convencional com lipiodol. No grupo combinado, o paciente era reavaliado por imagem após cada ciclo; quando o tumor residual viável preenchia o critério chamado AT-up-to-7 — o número de lesões viáveis remanescentes somado ao diâmetro da maior lesão resultando em menos de 7, com a maior lesão de até 5 cm — e a ablação completa era tecnicamente segura, realizava-se a ablação por radiofrequência guiada por tomografia em até 4 semanas. No grupo controle, novas sessões de TACE eram feitas conforme o julgamento do investigador.
O desfecho primário foi a sobrevida livre de progressão avaliada pelos critérios RECIST 1.1. Entre os desfechos secundários estavam a sobrevida global, a resposta tumoral por mRECIST, a sobrevida livre de progressão “não tratável” — o tempo até a doença deixar de ser abordável pelos tratamentos do protocolo — e a segurança.
Figura 1. Esquema do desenho do estudo TORCH. Ilustração original elaborada pelo Hospital Certa com base na descrição metodológica de Lyu et al., JAMA Oncology, 2026.

✓ A sobrevida livre de progressão mediana por RECIST 1.1 foi de 17,7 meses (IC 95%: 11,4–23,1) no grupo TACE + ablação contra 7,3 meses (IC 95%: 6,4–10,4) no grupo TACE isolada — um ganho de 10,4 meses (HR 0,47; IC 95%: 0,34–0,65; p < 0,001).
✓ A sobrevida global mediana alcançou 88,6 meses no grupo combinado contra 35,1 meses no grupo TACE isolada (HR 0,50; IC 95%: 0,34–0,73; p < 0,001).
✓ A sobrevida livre de progressão “não tratável” — tempo até a doença deixar de ser tratável pelos procedimentos do protocolo — foi de 35,1 meses contra 12,3 meses (HR 0,40; IC 95%: 0,27–0,58; p < 0,001).
✓ A resposta objetiva confirmada por mRECIST ocorreu em 84,3% dos pacientes (102 de 121) no grupo combinado, contra 56,7% (68 de 120) no grupo TACE isolada (p < 0,001).
✓ As taxas de sobrevida livre de progressão em 1 e 2 anos foram de 57,0% e 37,9% com a combinação, contra 36,1% e 12,9% com a TACE isolada.
✓ Os eventos adversos graus 3 e 4 relacionados ao tratamento foram semelhantes entre os grupos: 23,2% no grupo combinado e 18,3% no grupo TACE isolada, sem nenhuma morte relacionada ao tratamento em qualquer dos braços.
✓ O benefício foi mais consistente nos pacientes com carga tumoral baixa a moderada (escore “6-and-12” de até 12 pontos). A elegibilidade para a ablação após a TACE caiu conforme a carga tumoral aumentava — 100%, 83,1% e 50% nos escores de até 6, de 6 a 12 e acima de 12 pontos, respectivamente.
Figura 2. Comparação das medianas de sobrevida entre os dois grupos. Gráfico original elaborado pelo Hospital Certa a partir dos dados publicados por Lyu et al., JAMA Oncology, 2026.

O estudo TORCH foi conduzido por Ning Lyu, Ming Zhao, Min-Shan Chen e colaboradores, do Sun Yat-sen University Cancer Center e do Terceiro Hospital Afiliado da Universidade Sun Yat-sen, em Guangzhou (China), e publicado em 2026 na revista JAMA Oncology, periódico da American Medical Association. O ensaio está registrado no ClinicalTrials.gov sob o identificador NCT02435953.
Referência (Vancouver): Lyu N, Yi JZ, Wu XT, Zhang YM, Pan T, Mu LW, et al. Transarterial Chemoembolization Plus Thermal Ablation in Unresectable Hepatocellular Carcinoma: The Phase 3 TORCH Randomized Clinical Trial. JAMA Oncol. Published online July 30, 2026. doi:10.1001/jamaoncol.2026.2366
Para quem tem um tumor de fígado que já não pode ser operado nem tratado com transplante, mas que ainda está restrito ao órgão, este estudo traz uma mensagem prática: não tratar apenas pela artéria, e sim complementar o tratamento eliminando o que sobrou. A estratégia é feita com dois procedimentos minimamente invasivos, sem cortes cirúrgicos, e no estudo dobrou o tempo livre de progressão sem aumentar de forma relevante os efeitos adversos graves.
Há outro ponto relevante: essa combinação não consome as opções futuras. Diferentemente das associações com terapia sistêmica — que trazem toxicidades próprias e podem levar à interrupção do tratamento —, a sequência TACE + ablação preserva os medicamentos sistêmicos para quando a doença eventualmente progredir para o estágio avançado. Os autores também apontam o custo menor como um argumento relevante para países com menos recursos.
É importante ponderar as limitações. O estudo foi aberto, sem revisão radiológica centralizada e cega, o que pode influenciar desfechos avaliados por imagem. A população era chinesa e majoritariamente com hepatite B, enquanto no Brasil e no Ocidente pesam mais a doença hepática alcoólica e a esteatose hepática metabólica. Além disso, foram usadas apenas a TACE convencional com lipiodol e a radiofrequência — não foram testadas as microesferas carregadas com quimioterápico nem a ablação por micro-ondas —, e pacientes com estado geral pior (ECOG maior que 0) foram excluídos. Nenhum tratamento oncológico deve ser decidido por um único estudo: a indicação precisa ser individualizada em discussão multidisciplinar, considerando o número e o tamanho dos nódulos, a função hepática e as condições clínicas de cada paciente.
Tanto a quimioembolização hepática quanto a ablação percutânea guiada por imagem estão disponíveis no Hospital Certa, com valores acessíveis e avaliação individualizada de cada caso.
O que é a quimioembolização transarterial (TACE)?
É um procedimento minimamente invasivo em que um cateter muito fino é navegado por dentro dos vasos até a artéria que alimenta o tumor do fígado. Ali são injetados o quimioterápico e um agente que bloqueia esse vaso — combinando o efeito da droga concentrada no tumor com o corte do seu suprimento de sangue.
O que é a ablação térmica e por que combiná-la com a TACE?
A ablação térmica destrói o tumor pelo calor, por meio de uma agulha introduzida pela pele e posicionada dentro do nódulo com auxílio de tomografia ou ultrassom. Ela é usada depois da quimioembolização porque nem sempre a TACE consegue destruir todo o tumor — sobretudo quando as artérias que o alimentam são muito finas. A ablação elimina justamente esse tecido tumoral que resistiu.
Quem pode se beneficiar dessa combinação?
No estudo, os melhores resultados apareceram em pacientes com tumores confinados ao fígado, com carga tumoral baixa a moderada, boa função hepática e cujo tumor residual após a TACE ficava dentro de critérios que permitiam uma ablação completa e segura. A avaliação é sempre individual.
Essa combinação substitui a cirurgia ou o transplante de fígado?
Não. Ela foi estudada exatamente em pacientes que não tinham indicação de cirurgia, transplante ou ablação isolada com intenção curativa. Quando essas opções curativas são possíveis, elas continuam sendo a primeira escolha.
A combinação é mais arriscada do que a TACE isolada?
No estudo, não. Os eventos adversos graves (graus 3 e 4) relacionados ao tratamento ocorreram em proporções semelhantes nos dois grupos, e não houve mortes relacionadas ao tratamento em nenhum deles. As alterações mais frequentes foram elevações transitórias das enzimas hepáticas.
Esses resultados valem para todo paciente com câncer de fígado?
Não automaticamente. O estudo incluiu apenas pacientes em estágio intermediário, com bom estado geral e, em sua maioria, com hepatite B. Pacientes com doença avançada, função hepática muito comprometida ou outras causas de doença hepática podem responder de forma diferente — por isso a decisão precisa ser tomada caso a caso, em equipe multidisciplinar.
O Dr. Denis Szejnfeld é radiologista intervencionista, doutor pela Unifesp e professor da instituição, e ex-presidente da SOBRICE (biênio 2023–2024). Reúne três títulos de especialista — em Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR), em Radiologia Intervencionista e Angiorradiologia (SOBRICE) e em Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV) —, com formação no Brigham and Women's Hospital e no Beth Israel Deaconess Medical Center (Harvard) e ampla produção científica em periódicos nacionais e internacionais. Consulte sua produção científica e índice de impacto (índice h) no Google Scholar e o currículo completo na Plataforma Lattes.
Quimioembolização seguida de ablação melhora a sobrevida no câncer de fígado? O que mostra o estudo TORCH
