Tratar primeiro a metástase no fígado pode atrasar a volta do câncer colorretal? O que mostra um novo estudo sobre ablação
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Um estudo publicado em 2026 na revista CardioVascular and Interventional Radiology comparou duas ordens de tratamento em pacientes com poucas metástases de câncer colorretal no fígado: fazer a ablação térmica logo de início, com quimioterapia depois, ou começar pela quimioterapia e só então fazer a ablação. Quem recebeu a ablação primeiro ficou mais tempo sem progressão da doença e teve menos recidiva precoce, sem diferença na sobrevida global. Em comentário na mesma revista, especialistas do Instituto Europeu de Oncologia apontaram por que o resultado é promissor, mas ainda não basta para mudar a prática.
“No Hospital Certa, realizamos a ablação térmica percutânea de metástases hepáticas guiada por imagem, sempre em decisão conjunta com o oncologista clínico. Estudos como este ajudam a responder uma pergunta que surge com frequência: em que momento do tratamento a ablação deve ser feita.”
O fígado é o local mais comum de metástases do câncer colorretal. Quando essas metástases são poucas e pequenas, situação chamada de doença oligometastática, elas podem ser tratadas com intenção curativa. Além da cirurgia, a ablação térmica (por micro-ondas ou radiofrequência) destrói o tumor com calor por meio de uma agulha introduzida pela pele, guiada por tomografia ou ultrassom. Ensaios recentes como o COLLISION e o MAVERRIC reforçaram o papel da ablação em pacientes selecionados com lesões pequenas.
Resolvida a questão sobre se a ablação funciona, sobrou outra: quando fazê-la. Muitos pacientes recebem alguns ciclos de quimioterapia antes do tratamento local (quimioterapia neoadjuvante). Outros fazem a ablação logo de início e a quimioterapia depois (adjuvante). O estudo comparou essas duas estratégias.
Foi um estudo retrospectivo, que analisou prontuários de pacientes tratados entre 2014 e 2022 com até 5 metástases hepáticas de câncer colorretal, todas com menos de 5 cm. Os pacientes foram divididos em dois grupos: ablação primeiro, seguida de quimioterapia adjuvante, e quimioterapia primeiro, com mediana de quatro ciclos antes da ablação.
Para tornar os grupos comparáveis, os autores usaram o pareamento por escore de propensão, técnica estatística que emparelha pacientes com características semelhantes. Ao final, foram analisados 140 pacientes, 70 em cada grupo. O desfecho principal foi a sobrevida livre de progressão, ou seja, o tempo até a doença voltar a crescer ou aparecer em outro lugar. Também foram avaliadas a sobrevida global, a recidiva precoce e a segurança.
Desenho do estudo: as duas sequências de tratamento comparadas. Figura original do Hospital Certa, elaborada a partir de Yue et al., Cardiovasc Intervent Radiol, 2026.
Sobrevida livre de progressão e recidiva precoce nos dois grupos. Figura original do Hospital Certa com dados de Yue et al., Cardiovasc Intervent Radiol, 2026.
O estudo “Upfront Thermal Ablation versus Neoadjuvant Chemotherapy Followed by Ablation for Oligometastatic Colorectal Liver Metastases: A Propensity Score Matching Analysis” foi conduzido por Xiaoning Yue, Xiang Zhou e colaboradores, do Departamento de Terapia Intervencionista do National Cancer Center / Cancer Hospital da Academia Chinesa de Ciências Médicas, em Pequim, com dados de dois centros. Foi publicado em 2026 na CardioVascular and Interventional Radiology (CVIR), revista oficial da Sociedade Europeia de Radiologia Cardiovascular e Intervencionista (CIRSE).
Na mesma edição, Franco Orsi, Paolo Della Vigna e Davide Ciardiello, do Instituto Europeu de Oncologia (IEO), em Milão, publicaram um comentário crítico sobre o estudo, “Chemo First or Ablation First? The Sequencing Dilemma in Ablatable Colorectal Liver Metastases”.
Referências (Vancouver):
Para quem tem poucas metástases no fígado passíveis de ablação, o estudo sugere que tratar primeiro a lesão hepática pode adiar a volta da doença, sem aumentar complicações. Uma justificativa é que a quimioterapia pode deixar as metástases menos visíveis nos exames, o que dificulta localizar e tratar todas depois. Há também um lado prático: o paciente não passa meses convivendo com uma lesão que já poderia ter sido tratada.
O comentário do grupo de Milão, porém, pede cautela, e esses pontos são importantes para uma decisão bem informada:
A quimioterapia antes do tratamento local continua tendo uma função: funciona como um “teste do tempo”, que pode revelar uma doença mais agressiva ou espalhada e poupar o paciente de um procedimento que não traria benefício. A mensagem dos comentaristas é que ela não deve ser feita por rotina, e sim reservada aos casos em que a biologia do tumor justifica esse intervalo. Por isso, a ordem do tratamento deve ser individualizada e decidida em conjunto pelo radiologista intervencionista, pelo oncologista clínico e pelo cirurgião, considerando o número e o tamanho das lesões, o perfil molecular do tumor e a história de cada paciente.
É um procedimento minimamente invasivo em que uma agulha, guiada por tomografia ou ultrassom, é posicionada dentro da metástase e a destrói com calor gerado por micro-ondas ou radiofrequência. É feito pela pele, sem cortes.
Em geral, pacientes com poucas metástases hepáticas, de tamanho pequeno e em posição tecnicamente acessível. As evidências mais sólidas se referem a lesões de até 3 cm. A indicação depende da avaliação por imagem e da discussão com a equipe oncológica.
Não necessariamente. O estudo mostrou maior tempo sem progressão com a ablação primeiro, mas sem diferença na sobrevida global, e tem limitações por ser retrospectivo. A sequência ideal deve ser definida caso a caso, com o oncologista.
Ela pode reduzir as lesões a ponto de ficarem difíceis de enxergar nos exames, o que complica o tratamento local depois. Técnicas como a fusão de imagens e a marcação do local original do tumor ajudam a contornar esse problema.
Não. Nas duas estratégias estudadas, os pacientes receberam quimioterapia; o que mudou foi a ordem. A ablação trata as lesões visíveis no fígado, e a quimioterapia atua sobre a doença no restante do organismo.
A internação costuma ser curta e a recuperação mais rápida do que a de uma cirurgia aberta. O tempo de permanência é definido pela equipe conforme o número e a localização das lesões e as condições de cada paciente.
O Dr. Denis Szejnfeld é radiologista intervencionista, doutor pela Unifesp e professor da instituição, e ex-presidente da SOBRICE (biênio 2023–2024). Reúne três títulos de especialista, em Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR), em Radiologia Intervencionista e Angiorradiologia (SOBRICE) e em Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV), com formação no Brigham and Women's Hospital e no Beth Israel Deaconess Medical Center (Harvard) e ampla produção científica em periódicos nacionais e internacionais. Consulte sua produção científica no Google Scholar e o currículo completo na Plataforma Lattes.
Tratar primeiro a metástase no fígado pode atrasar a volta do câncer colorretal? O que mostra um novo estudo sobre ablação
