É possível tratar um câncer de mama inicial sem cirurgia? O que mostra o estudo ICE3 após 5 anos de acompanhamento
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O estudo ICE3, publicado na revista Annals of Surgical Oncology, acompanhou por 5 anos mulheres com 60 anos ou mais tratadas com crioablação — congelamento guiado por imagem — para câncer de mama inicial e de baixo risco, sem qualquer cirurgia para retirar o tumor. Os resultados mostraram taxa de recidiva local baixa, sobrevida elevada e alta satisfação das pacientes com o resultado estético.
“No Hospital Certa, acompanhamos de perto as técnicas de ablação guiada por imagem — uma linha de tratamento minimamente invasiva que já se consolidou em outros órgãos e que agora ganha respaldo científico robusto também no câncer de mama inicial.”
Mulheres mais velhas com câncer de mama inicial, de baixo risco (tumor pequeno, receptor hormonal positivo e HER2-negativo) vêm recebendo tratamentos cada vez menos agressivos — evitando, por exemplo, radioterapia pós-cirurgia ou a biópsia do linfonodo sentinela em casos selecionados. Nesse contexto, evitar completamente a cirurgia passou a ser estudado como possibilidade para uma parcela dessas pacientes.
O estudo ICE3 avaliou a segurança e a eficácia da crioablação sem excisão cirúrgica — ou seja, o tumor é congelado e destruído no lugar, sem ser removido por cirurgia — em mulheres com 60 anos ou mais e câncer de mama inicial de baixo risco, com o objetivo de oferecer uma alternativa não operatória que evite os riscos da cirurgia.
Foi um estudo prospectivo, multicêntrico (19 centros nos EUA), aprovado por comitê de ética, que incluiu mulheres com 60 anos ou mais com carcinoma ductal invasivo único, visível ao ultrassom, de até 1,5 cm, receptor hormonal positivo e HER2-negativo. Ao todo, 194 pacientes completaram o protocolo e foram acompanhadas por clínica, exames de imagem e questionários de qualidade de vida aos 6, 12, 24, 36, 48 e 60 meses.
O procedimento foi feito em consultório, sob anestesia local e guiado por ultrassom: uma sonda de crioablação atinge temperaturas de até -170°C, formando uma “bola de gelo” que destrói o tumor por congelamento, em uma sessão com duplo ciclo de congelamento e descongelamento, durando de 20 a 40 minutos no total.
O estudo “Cryoablation Without Excision for Early-Stage Breast Cancer: ICE3 Trial 5-Year Follow-Up on Ipsilateral Breast Tumor Recurrence” foi conduzido por Richard E. Fine e uma ampla rede de colaboradores em 19 centros dos Estados Unidos, e publicado em 2024 na revista Annals of Surgical Oncology, periódico oficial da Society of Surgical Oncology.
Referência (Vancouver): Fine RE, Gilmore RC, Tomkovich KR, Dietz JR, Berry MP, Hernandez LE, et al. Cryoablation Without Excision for Early-Stage Breast Cancer: ICE3 Trial 5-Year Follow-Up on Ipsilateral Breast Tumor Recurrence. Ann Surg Oncol. 2024;31:7273-7283. doi:10.1245/s10434-024-16181-0
Para mulheres mais velhas com câncer de mama inicial e de baixo risco, este estudo traz uma perspectiva que pode ampliar as opções de tratamento: a possibilidade de destruir o tumor sem cirurgia, em consultório, sob anestesia local, com recuperação rápida e resultado estético excelente. É fundamental destacar que essa alternativa foi testada em um grupo muito específico e cuidadosamente selecionado — tumores pequenos (até 1,5 cm), únicos, de baixo grau, com receptor hormonal positivo e HER2-negativo, em mulheres com 60 anos ou mais. A decisão de tratar sem cirurgia deve ser sempre individualizada, discutida com a equipe oncológica, e os próprios autores recomendam que a crioablação seja acompanhada por terapia endócrina adjuvante e seguimento de imagem rigoroso para garantir a detecção precoce de qualquer recidiva.
É um procedimento minimamente invasivo, guiado por ultrassom, que utiliza uma sonda para congelar e destruir o tumor no próprio local, sem necessidade de removê-lo cirurgicamente.
No estudo, as candidatas eram mulheres com 60 anos ou mais, com carcinoma ductal invasivo único, visível ao ultrassom, de até 1,5 cm, receptor hormonal positivo e HER2-negativo — um perfil de baixo risco.
Não. Ela foi estudada especificamente para um subgrupo de baixo risco, com tumores pequenos e características biológicas favoráveis. A indicação deve ser sempre avaliada individualmente pela equipe oncológica.
No estudo, não houve eventos adversos graves relacionados ao dispositivo. Os efeitos mais comuns foram hematoma, dor e edema local, leves ou moderados, resolvidos sem sequelas.
Sim, no estudo a maioria das pacientes recebeu terapia endócrina (hormonal) como complemento, e o acompanhamento com exames de imagem regulares é essencial para monitorar a área tratada.
Não. Todas as crioablações do estudo foram feitas em regime ambulatorial, com alta no mesmo dia, e a maioria das pacientes retomou as atividades diárias em até 48 horas.
O Dr. Denis Szejnfeld é radiologista intervencionista, doutor pela Unifesp e professor da instituição, e ex-presidente da SOBRICE (biênio 2023–2024). Reúne três títulos de especialista — em Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR), em Radiologia Intervencionista e Angiorradiologia (SOBRICE) e em Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV) —, com formação no Brigham and Women's Hospital e no Beth Israel Deaconess Medical Center (Harvard) e ampla produção científica em periódicos nacionais e internacionais. Consulte sua produção científica e índice de impacto (índice h) no Google Scholar e o currículo completo na Plataforma Lattes.
É possível tratar um câncer de mama inicial sem cirurgia? O que mostra o estudo ICE3 após 5 anos de acompanhamento
